as Jornadas de Junho e a memória das ruas Coletivo Anarquista Bandeira Negra

as Jornadas de Junho e a memória das ruas Coletivo Anarquista Bandeira Negra



Carta de Abertura do IX Sarau 1º de Maio (2023)

Compas de luta, sintam-se convidados ao 9° Sarau de Primeiro de Maio, dia de luta da classe trabalhadora em todo o mundo.

O Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN), integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), celebra com toda a companheirada mais um ano de nosso sarau. Agradecemos à Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Itinga (Amorabi), que mais uma vez nos acolhe, e também à comunidade do bairro Itinga, território de luta com quem aprendemos por toda sua história de organização de base. São nove anos de construção do sarau com muito amor e rebeldia, em que nos reunimos para relembrar a história das lutas de nossa classe, festejar a vida de nossa gente que segue de pé e compartilhar nossa arte – ou como dizem nossas companheiras zapatistas: CompArte!

Gente trabalhadora reunida, compartilhando caminhos e sonhos, incomoda e assusta o patrão. Cada direito que temos foi arrancado pela força das ruas, das greves, do apoio mútuo entre a companheirada e da nossa organização enquanto classe, com o compromisso de quem deu a vida pela luta do povo. 1º de Maio marca o assassinato cometido pelos patrões e pelo Estado contra os mártires de Chicago: Albert Parsons, Louis Lingg, Adolph Fischer, George Engel, August Spies, Michael Schwab, Samuel Fielden e Oscar Neebe. Rememoramos também nesse dia todas as pessoas assassinadas, torturadas, presas e perseguidas por sua peleia em busca de uma vida digna, na cidade, no campo e na floresta.

Por isso, o 1º de Maio, como já cantamos antes nesse palco, “não é dia do trabalho. Dia 1º de Maio é dia de quem trabalha”. Marcando essa data de nosso calendário rebelde, queremos hoje rememorar também mais um marco de nossa história: as manifestações que tomaram as ruas em 2013, as Jornadas de Junho.

As lutas de 2013 iniciaram contra os aumentos da passagem de ônibus em várias cidades do país, ainda em janeiro. Quando recebemos cenas da brutalidade policial contra manifestantes em São Paulo, no início de junho, foi que as manifestações do Movimento Passe Livre (MPL), aliado às frentes populares de luta pelo transporte, se multiplicaram e reuniram centenas de milhares de pessoas nas ruas, com destaque para os dias 13 e 20 de junho. Houveram atos conectando a rebeldia contra a tarifa e a polícia em Joinville, Florianópolis, Porto Alegre, São Paulo, Brasília, Porto Velho, Maceió e centenas de outras cidades. É provável que 20 de junho tenha sido o dia em que mais gente saiu às ruas em um ato na história do Brasil. Por trás de tudo, havia o contraste entre demandas sociais urgentes do povo trabalhador e o dinheiro público utilizado para a realização dos megaeventos esportivos por parte do Partido dos Trabalhadores (PT), então à frente do Executivo nacional.

Após uma tentativa fracassada da mídia em criminalizar e deslegitimar os atos, houve um esforço coordenado e eficiente em disputar o sentido das ruas. Logo, as bandeiras contra a tarifa disputavam espaço com pautas genéricas contra a corrupção e a hostilidade a qualquer partido ou organização de esquerda. Na maioria das cidades, o bloco de esquerda se viu minoritário no final daquela disputa. Ainda assim, houve ganhos concretos da mobilização. Foi possível reduzir o valor da tarifa de ônibus em mais de 100 cidades ao mesmo tempo, conquista que teve impacto até nas estatísticas de inflação nacional de 2013.

Do ponto de vista político, também tiveram marcos importantes. As Jornadas de Junho inspiram uma geração de novos militantes a se organizar, incluindo parte de nossa organização atualmente. Dezenas de ocupações por moradia surgiram espontaneamente entre 2013 e 2014, se vinculando posteriormente ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e dando ao movimento a expressão e força que possui até hoje. As lutas contra as remoções dos megaeventos e as ocupações de escolas de 2015 e 2016, marco de combatividade do movimento estudantil, também tiveram influência decisiva desta luta.

Não podemos nos esquecer de Rafael Braga. Preso em 2013 por portar um Pinho Sol durante um ato, ele não era militante, apenas catava materiais recicláveis no Rio de Janeiro no momento da manifestação. Por ser negro e pobre, foi levado à prisão, incriminado falsamente pela polícia militar e depois adoecido pelo sistema carcerário. A campanha pela liberdade de Rafael Braga foi um grito motivado por 2013 contra as injustiças do sistema carcerário.

De 2013 pra cá, foram 10 anos em que continuamos enfrentando as investidas neoliberais; o capital agroexportador que engole nossas florestas e ameaça os povos que vivem nela; um período no qual presenciamos o avanço da extrema-direita, com quatro anos de um governo genocida e fascista. Vimos uma Copa do Mundo e uma Olimpíadas no Brasil projetadas sobre a expulsão forçada de milhares de pessoas pobres. Durante esses 10 anos, também testemunhamos o fortalecimento da ideia de que nossa única saída enquanto povo oprimido está na via eleitoral, na esperança de ser feliz depositada nas urnas. Há quem culpe 2013 por essa década, tentando jogar no colo do povo a culpa pelos golpes dados pela elite. Puxar o freio de mão da luta popular e responsabilizá-la por quaisquer resposta da direita, dos patrões ou do setor conservador presente entre o povo, é acreditar que recuando podemos vencer essa guerra, talvez sem incomodar tanto aqueles que nos exploram. Por tudo isso, é necessário afirmar: não conseguiremos construir um mundo novo sem destruir tudo o que nos oprime!

Como anarquistas, entendemos o Estado como nosso inimigo, como um instrumento de uma minoria que possui o monopólio da violência por meio das polícias para sustentar a riqueza de uma elite econômica. Não há perspectiva de construção de um Estado popular. Por isso, em 2013, não tivemos receio de apontar as contradições do governo do PT e nem de combater nas ruas suas medidas impopulares. Vale destacar que a direita neoliberal ou grupos fascistas não se fortaleceram através dos atos de 2013. Foram, na verdade, resultado de uma tentativa fracassada de lidar com as feridas escravocratas e da guerra de classes através de um pacto de conciliação.

Para garantir governabilidade, vimos anos de um governo federal progressista se curvando às demandas dos ricos, latifundiários e especuladores, culminando no golpe parlamentar sofrido em 2016 pela presidenta Dilma Rousseff (PT). Além disso, o esforço do Partido dos Trabalhadores para domesticar os instrumentos de classe e torná-los máquinas de campanha fez com que os sindicatos e movimentos sociais construídos pelo povo não tivessem mais força ou disposição para a luta popular, dando espaço para a direita na disputa ideológica.

Aqueles que hoje querem domesticar as ruas, tentam representar as Jornadas de Junho como um ato de grupelhos da direita ou uma armação da CIA. Esses grupelhos pró fascistas, que nem existiam em 2013, teriam lutado para baixar o preço da tarifa e ocupado a Assembleia Legislativa? Teriam enfrentado e feito correr o caveirão da polícia racista, como aconteceu no Rio de Janeiro? Uma análise honesta sobre 2013 não deveria nos fazer temer as ruas, mas reafirmar nossos caminhos fora da democracia burguesa, na autonomia de nossa gente e em sua auto-organização.

Não há saída para o povo fora da luta popular. É o que nos ensina o 1º de Maio, assim como é o legado de 2013. Existem críticas e aprendizados a serem feitos neste balanço de 10 anos, mas eles não têm nada a ver com abandonar as ruas e atos autônomos. Em 2013, identificamos que não tínhamos força para enfrentar ao mesmo tempo a violência do Estado, a disputa ideológica da ação coordenada das mídias empresariais e a enrolação dos políticos profissionais. E por quê? Porque não havia organização popular suficiente.

Cada coração que bate por um mundo livre precisa ser, também, uma mão e um ombro dentro de um movimento social, de um sindicato ou de outro organismo de luta de nossa classe. Cada ato de rua deve servir também para trazer mais pessoas para nossos movimentos. Nossa vitória não será por acidente. Ela precisa ser construída com estratégia coletiva e trabalho cotidiano, desde hoje, desde baixo e à esquerda.

Que mais uma década de sonhos, peleia e organização se inicie. Que sejamos fortes para seguir tomando as ruas, lutando pela vida e por nossos territórios. Venceremos, companheiros e companheiras. Que o sarau de hoje possa festar nossos corações rebeldes. CompArte!

Viva a classe trabalhadora. Viva a luta de rua. Viva o anarquismo. Viva o 1º de Maio!



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